Durante a Caminhada a Guerra do Contestado foi relembrada (Foto: Fernando Zamban)

Segundo a coordenação geral da 22ª Romaria da Terra e da Água, em Santa Catarina a romaria deste ano reuniu cerca de 8 mil pessoas em Irani, meio oeste catarinense no último dia 11. O tema “Mudanças Climáticas” deu o tom ao evento, que ressaltou a importância da Guerra do Contestado para os que lutam pela terra. O evento ocorre a cada dois anos e é promovido pelas pastorais sociais do Regional Sul 4 da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Os romeiros concentraram-se a partir das 9h no Monumento do Contestado, de onde partiram em caminhada para o local da romaria, intercalando canções, orações e reflexões sobre a luta pela terra e o tema da romaria deste ano.

Mudanças climáticas é um assunto caro aos catarinenses. Mais de quinze ônibus que viriam à romaria precisaram ser cancelados, pois 71 cidades em Santa Catarina foram atingidas por inundações, e dezenove estão em situação de emergência. Do caminhão de som, os romeiros foram lembrados de que, o modo como a natureza é tratada, não reflete o projeto de Deus.

Durante a caminhada, manifestações culturais (poemas, músicas e teatros) contaram a história das terras contestadas, que envolveram em batalha cerca de 20 mil camponeses contra forças militares federais e estaduais.

O músico e coordenador de Pastoral em Jaguaruna, Márcio Freitas, de 35 anos, contou que uma das coisas que o levaram a romaria, foi a vontade de compreender essa cultura que envolve a região do Contestado.

Eu vim pisar nessa terra santa para tentar buscar um resgate desse passado histórico de muita luta por um mundo melhor e uma sociedade melhor. A caminhada, que foi bem cansativa, me deu um retorno bem positivo -, declarou Freitas.

Depois da caminhada, cerca de 1,3 quilômetros, dom Severino Clasen, bispo diocesano de Caçador, abençoou os alimentos para o almoço. No círculo de tendas armadas pelas pastorais e organismos da CNBB, movimentos sociais do campo e instituições públicas, foram partilhados alimentos, água e experiências dos trabalhos que realizam.

A prática teve um sentido pedagógico que os romeiros compreenderam bem. Ketlyn Munari de Mattos, 14 anos, estudante de Herval d´Oeste, soube do evento durante uma missa. Achou “forte” o nome “romaria” e se interessou. Ela ainda convenceu duas amigas a participar.

A alimentação partilhada foi interessante, nós trouxemos comida de casa e repartimos com o nosso grupo, tinha bastante gente, mas todos comeram bem – contou.

Veterano de seis romarias, o agricultor chapecoense Vitor Borsoi, aos 57 anos, viu cumprir-se ali um milagre bíblico.

A partilha do almoço foi fantástica. Todos partilharam e sobrou comida. Foi como está na bíblia, o milagre da multiplicação do alimento. Parece que a Igreja Católica está no rumo certo. Só com a fé para entendermos isso – disse, acrescentando que conheceu novas culturas através dos pratos oferecidos.

Durante a homilia, na missa que ocorreu às 15h, depois de uma sequência de apresentações culturais, dom Wilson Tadeu Jönck, bispo de Tubarão e presidente da CNBB Regional Sul 4, retomou a causa da preservação da natureza. Para ele, é preciso recuperar o que foi destruído pelo modelo produtivo imediatista, que não considerou a preservação do meio ambiente.

Nós podemos formar um mundo diferente. Um mundo onde possamos dizer: aqui é muito bom. E já existem iniciativas neste sentido – disse o bispo.

Ele também defendeu um mundo em que não existam pessoas que explorem umas as outras, achando-se credores delas. Como exemplo, ele lembrou que durante o almoço ninguém pagou nada.

Qualquer um poderia pensar que uma multidão como essa poderia render um bom dinheiro. Mas não é desta forma que queremos pensar – analisou.

Depois da celebração, os romeiros acompanharam o plantio da cruz de cedro, ao lado do monumento do Contestado. Recuperando vários temas já refletidos durante o dia, o animador ainda lembrou que a madeira da cruz estava verde e viva e que em breve brotará.

Marcelo Luiz Zapelini, repórter da agência Sul 4 de Notícias (Edição: Daiane Servo)