Nesta segunda-feira, 12 de novembro de 2018, quando a Cáritas Brasileira celebrou os 62 anos de fundação, em meio II Jornada Mundial dos Pobres, celebrada entre os dias 11 e 18 de novembro de 2018, foi realizada a cerimônia de entrega do V Prêmio Odair Firmino de Solidariedade, na sede da Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF).

O Prêmio deste ano teve como objetivo estimular e fortalecer ações de grupos comunitários que atuam no fortalecimento da solidariedade e da esperança na construção da cultura da paz. O tema foi: A cultura da paz para a superação da violência, em consonância com a Campanha da Fraternidade 2018, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que apresenta o tema Fraternidade e superação da violência.

Conheça a história do projeto de Santa Catarina, uma das vencedoras deste ano.

Resistência e empoderamento

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A geração de renda a partir da Economia Popular Solidária traz novas perspectivas para mulheres do interior do estado de Santa Catarina

Entre as montanhas da Serra Catarinense, está localizada a comunidade do Divino Espírito Santo, município de Rio Rufino, em Santa Catarina, a 195 quilômetros da capital Florianópolis. Conhecida como capital nacional do vime, material flexível que no seu trançado dá forma a cestos e móveis, Rio Rufino também é terra de empoderamento feminino, luta para uma vivência solidária e do bem viver.

Na terra onde se usa da flexibilidade da vara da vimeira para fazer artesanato e gerar renda, mulheres de várias idades também se flexibilizam entre o preconceito e a convicção do protagonismo que geram numa pequena cozinha, nos fundos do salão de festas da Igreja Católica, afastada alguns quilômetros da maior concentração de casas, na comunidade Divino Espírito Santo. Elas são as Morenas do Divino.

– Por que Morenas do Divino?

– Nossa cor já diz tudo, disse timidamente Rita de Cássia Lima de Oliveira, 48 anos e nascida na comunidade com princípios quilombolas, que logo depois contou que os maridos, trabalhadores do campo, são conhecidos como Morenos do Divino pelos produtores rurais da região que necessitam de trabalhos braçais em contratos durante os períodos de colheitas. Não haveria outro nome mais representativo para o empreendimento.

Tudo começou através de uma atividade de inserção na sociedade da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), da Universidade do Planalto Serrano (UNIPLAC), e do trabalho de conclusão do curso de especialização em Desenvolvimento Regional Sustentável, também disponibilizado pela UNIPLAC e produzido pela aluna Sonia Cardoso Oselame.

Alunos e professores da Universidade contaram com a mobilização de cerca de 20 mulheres em um encontro na comunidade na tentativa de encontrar uma forma das Morenas se organizarem e de forma solidária colaborar com a renda familiar. O principal foco desta reunião foi a descoberta de uma atividade em comum entre as mulheres presentes. Produtos panificados e biscoitos artesanais foi o escolhido por elas.

– Das vinte, hoje estamos em dez mulheres, dez guerreiras que conciliam família e trabalho, disse Vera Lúcia da Silva, 38 anos, contando que depois que iniciaram o empreendimento de economia solidária não precisam mais acompanhar os maridos nas lavouras de plantações de fumo da região.

– E os maridos apoiam?

– No início eles achavam que era loucura nossa, mas depois perceberam que estávamos mais unidas e colaborando com o nosso pouco na renda familiar, disse Rita de Cássia com o olhar confiante recebendo a confirmação de Vera Lúcia.

– A gente gostaria que estivéssemos todas reunidas aqui para contarmos juntas a nossa história, mas nos dividimos entre fazer os produtos e ir para as feiras em Rio Rufino (SC) e Lages (SC), relatou Vera Lúcia explicando a ausência das outras companheiras.

A venda dos produtos das Morenas do Divino são realizadas nas feiras da região, entrega em domicílio e através das redes sociais. Na cozinha de produção é proibido a utilização de aparelhos de telefonia móvel, apenas o celular da Rita de Cássia permanece ativo e com sinal de alerta diferenciado para atender aos pedidos que chegam em um grupo de conversa em um aplicativo de mensagens instantâneas composto por clientes do empreendimento.

Novos caminhos – Hoje as Morenas do Divino possuem logomarca própria, uniforme, autorização da prefeitura municipal para comercialização de produtos e clientela fixa. Já foram capa de jornais da região como empreendimento inovador e tem o desejo de ter uma sede própria.

Como a atual cozinha pertence à comunidade Católica, para permanecerem ali, as Morenasidealizaram um projeto que rompeu um paradigma histórico:

– Quem definiria a nossa permanência na cozinha do salão era o Conselho Pastoral da Comunidade. Como era inserta a permanência aqui, pela primeira vez, reunimos os Morenos e Morenas, montamos uma chapa e agora somos nós da coordenação da comunidade. Isso nunca tinha acontecido, contou Rita de Cássia.

Atualmente as Morenas do Divino, que no início se reuniam três vezes por semana, se encontram todos os dias na cozinha da comunidade. Revezam-se nas vendas e no cuidado com o horário de buscar os filhos na pequena creche ou na escola de ensino fundamental da vila.

No final do mês, todas as contas do mercado são pagas e o que sobra é dividido entre as empreendedoras de acordo com o rendimento e presença de cada uma. A comunidade também ganha. Parte dos produtos como os ovos utilizados na produção vem da própria comunidade do Divino Espírito Santo.

No meio da conversa, Rita de Cássia interrompe, – Chegou a conta de energia elétrica, somos nós que assumimos essa conta como contra partida da utilização da cozinha. Veio cem reais mais cara. Esse mês vamos ter que rodar a baiana para pagar.

Olhou de novo para a conta soltou um sorriso com jeito de quem queria dizer que seria fácil.

As Morenas do Divino são a certeza de que sempre é tempo de inovar, aprender novos caminhos e que a geração de renda traz empoderamento. O empreendimento de economia solidária agora gera líderes, renda. As mãos que eram treinadas para a flexibilidade do vime, do trabalho com fumo e outras plantações, agora amassam pães, biscoitos, bolos, produzem vida e esperança.

Por Franklin Machado, Assessoria de Comunicação do Regional Sul 4 da CNBB